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domingo, 15 de julho de 2012

u-Carbureto: uma entrevista a três


u-Carbureto: uma entrevista a três
u-Carbureto: uma entrevista a três
“Quando eu era criança ouvia minha avó conversar com os bichos e ouvir as plantas. Meu avô ficava calado, observando o mundo”, diz Helder Herik sobre a arte de observar, que precede a de escrever. “Minha relação com a escrita começa aos quatorze anos quando ganhei do meu pai uma máquina de escrever (uma Olivetti vermelha)”, conta Mário Rodrigues, explicando que impressionar o pai foi o seu primeiro impulso. “A trajetória é lenta e se faz com muito esforço, já reneguei um primeiro livro lançado nos idos de 2002, de lá pra cá consegui exorcizar o Guimarães Rosa”, confessa Nivaldo Tenório sobre sua trajetória de amadurecimento como escritor. Confrontados com a mesma pergunta, os três integrantes do selo u-Carbureto, de Garanhuns, nascido sob a forma de fanzine literário em 2005, respondem de modo completamente distinto, o que dá uma pista do quão heterogêneo e interessante é o grupo em questão.

Capa da última edição do fanzine “u-Carbureto”, lançado em 2010


Entre as aulas de português, literatura e filosofia nos colégios de Garanhuns e algumas rodadas de café ou whisky na Cafeteria Casa Café, o trio se movimenta incessantemente como divulgadores, pensadores e produtores de literatura na cidade. O grupo é, segundo eles, algo como “pedras de amadurecer”, assim como as pedras de carbureto utilizadas para acelerar o amadurecido das frutas. Segundo Helder, os livros que publicam “são os cachos de bananas e nós somos os macacos-sapiens”.
Grupo reunido na biblioteca do SESC, em Garanhuns (Foto: Ricardo Moura)

O selo já publicou “As plantas crescem latindo” e “Sobre a lápide, o musgo”, de Helder Herik e “A curva secreta da linha reta”, de Mário Rodrigues. Em breve, sairão “Dias de febre na cabeça”, livro de estreia de Nivaldo Tenório; “BRAZIL, 2014” de Mário Rodrigues; e “A invenção dos avós”, de Helder Herik. Mais um número do fanzine, parado desde 2010, será lançado em breve em Garanhuns, com colaborações de escritores de todo o Brasil.
A entrevista a seguir é ora reduntante, ora cheia de nuances e olhares diversos sobre as mesmas matérias. Foi pensada como forma de imprimir o olhar triplo do grupo sobre todas as questões. Para cada questão, três respostas, uma de Mário, uma de Helder, uma de Nivaldo.
Fig2012.com – Qual é a trajetória pessoal de cada um de vocês com a literatura?
Helder - Quando eu era criança ouvia minha Avó conversar com os bichos e ouvia as plantas. Meu Avô ficava calado, observando o mundo. Na juventude, quando comecei a escrever, percebi que precisava ouvir as coisas e as observar. Igual os meus Avós faziam. Depois vieram os livros e encheram a minha cabeça de coisas e meti-me a escrever.
Escrevi três livros de poemas, são eles: “AMORTE” (2008), “As plantas crescem latindo” (2009) e “Sobre a lápide, o musgo” (2010). Todos pela u-Carbureto. Em outubro, publico “A invenção dos Avós”, também de poemas.
Mário - Minha relação com a escrita começa aos quatorze anos quando ganhei do meu pai uma máquina de escrever (uma Olivetti vermelha), no intuito de impressioná-lo escrevi meus primeiros textos (o primeiro deles, meu pai guardou na carteira até o dia de sua morte); como leitor: aprendi a ler muito cedo, fui alfabetizado por minha irmã mais velha antes de ir à escola. Li de tudo, sem critério ou filtro algum; até o final da adolescência, quando comecei a ser um leitor mais disciplinado, não necessariamente seletivo, apenas disciplinado.
Nivaldo - Somos escritores do jeito mais difícil porque permanecemos longe do centro. Não estou me referindo a Recife que é tão província quanto Garanhuns. O centro é o lugar onde estão as grandes editoras do país. Tal distância não nos fez marginais. Acho que o escritor marginal, nos dias de hoje, é tão anacrônico como o mais imortal acadêmico. Mas assim como os escritores marginais ou acadêmicos também sofremos o fato de não nos levarem a sério. No nosso caso especificamente – já que ainda não leram o que escrevemos – porque estamos deslocados ou não fomos editados pelas editoras importantes de São Paulo, o que é a mesma coisa.
Esse jeito difícil de que falo é o jeito 
gauche de que fala o poeta mineiro quando se
achava longe do centro, longe de São Paulo, onde acontecia a verdadeira efervescência
com o Modernismo. Salvo as proporções, também estamos longe da agitação, apesar
da internet. Mas apesar dessa desvantagem, criamos um bom jornal que já recebeu a
colaboração de escritores importantes como Raimundo Carrero, Ronaldo Correia de
Brito e Rodrigo Lacerda, entre outros. Também criamos o selo U-carbureto e estamos
editando nossos livros com primor. Não somos rivais, como disse o Mário, cada um se
dedica a um gênero; Helder com a poesia, Mário com o romance e eu com o conto.
Cada um tem suas próprias ideias e de vez em quando divergimos muito, mas temos
algo em comum, somos bons leitores.
A trajetória é lenta e se faz com muito esforço, já reneguei um primeiro livro lançado
nos idos de 2002, de lá pra cá consegui exorcizar o Guimarães Rosa e não sei se
sou dono de um estilo próprio, mas com certeza não arranho mais nos forçados
neologismos. A preguiça é um mal que se abate sobre mim, mas nos intervalos escrevo
e reescrevo várias vezes o mesmo parágrafo. Ler não me dá tanto trabalho por isso leio
mais do que escrevo. Não vou enumerar os autores, pareceria pretensioso. Mas vou
citar três por quem sinto inveja da sofisticação que imprimiram a seus contos: Borges,
Cortázar e Osman Lins. Também não consigo parar de ler os grandes romancistas do
século XIX porque me interessa uma literatura que se ocupe da condição humana.
Helder Herik (Foto: Ricardo Moura)

Fig2012.com – Como se conheceram?
Helder- Era época de faculdade. A gente sempre acha uma turma. Acredito que tivemos sorte de viver na mesma época, com as mesmas inquietações. Então começamos a falar dos livros que estávamos lendo.
Recomendávamos novas leituras e mostrávamos as nossas produções. O Mário e o Nivaldo foram os meus primeiros críticos literários. São doze anos de amizade e discussões literárias.
Mário -  Conheço Nivaldo e Helder há uns doze anos (se não me engano). Helder estava numa palestra de Lucila Nogueira. Após a palestra, nos conhecemos e ele falou acerca de um grupo de poetas que se reuniam na UPE para debates e recitais, embora eu nunca tenha sido poeta frequentei o grupo durante alguns sábados. Depois o grupo se desfez, mas a amizade com Helder continuou. Nivaldo participava de um grêmio literário (outro grupo de debates e recitais), o processo foi o mesmo: conheci o grupo, que depois se acabou, e a amizade com Nivaldo continuou.
Nivaldo - A cidade é pequena, um dia um acabou esbarrando no outro.
Fig2012.com – De fanzine a livro, como e por que se deu essa transição?
Mário - Foi um processo natural de amadurecimento, o fanzine funcionava como um campo de provas, onde os textos batalhavam. Os melhores sobreviviam e mereciam ser chancelados com a publicação em livro.
Helder - Acho que sempre primamos pela qualidade. O bom texto e o bom suporte para este. Havia o desejo de cada um de ver seus textos publicados. Então resolvemos criar o selo u-Carbureto. Queríamos um nome bom, que nos identificasse. E, olha só, já o tínhamos: u-Carbureto. Considero um nome muito feliz.
Nivaldo – Acho que por causa de uma evolução natural e pelo fato de nós nos levarmos a sério como escritores.
Nivaldo Tenório (Foto: Ricardo Moura)

Fig2012.com - Por que “u-Carbureto”? Quem batizou o grupo?
Nivaldo - Não diga a ninguém, mas tudo foi ideia do Helder, eu e Mário só pegamos carona.
Mário - O carbureto serve para iluminar e para amadurecer (sobretudo bananas); é isso: ilumina e amadurece. Helder batizou o jornal.
Helder - É o seguinte: o carbureto era uma pedra que meu Avô usava para abafar as bananas que ele tirava do pé. A pedra de carbureto tem um cheiro muito forte, logo, ela é marcante, e sofre uma reação química que faz acelerar o amadurecimento das bananas. Cachos que levariam quinze dias para madurecer, em dois ou três dias já estão maduros. Nossos textos eram as bananas e u-Carbureto era a pedra de amadurecer. Os livros que publicamos são os cachos de bananas e nós somos os macacos-sapiens. (Risos) o ‘u’ minúsculo é para seguir a oralidade e inovar no design.
Fig2012.com – Existe uma cena literária em Garanhuns? Como vocês avaliam a produção e o consumo de literatura na cidade?
Mário -  Há, sem dúvidas, pessoas escrevendo, principalmente poesias e contos. Mas imaginar uma cena literária não seria o caso, seria necessário mais coesão e mais mergulho literário para que isso ocorresse. A produção de Helder (poesia) e Nivaldo (contos) são ilhas de excelência, mesmo se considerarmos o que é feito no Brasil em suas respectivas áreas.

Nivaldo - A cidade é meio fria, as pessoas são introspectivas e isso tudo junto deu-nos ar de sofisticação. Mas sou cético, ainda não temos um público leitor diferenciado. A cena
literária existe sim, está aí u-carbureto que não nos deixa mentir, e talvez essa cena,
quem sabe, um dia possa de fato exercer influência no consumo de literatura como
aconteceu em algumas cidades do Rio Grande do Sul, por exemplo, onde é comum
iniciativas como a nossa.
Helder - Sim, existe uma cena literária. Nós d’u-Carbureto a estamos fazendo. Existem outros escritores que também lançam seus livros e participam de nossas conversas. O SESC sempre está a promover eventos literários. Há um grupo de jovens que vem se especializando em declamação, mas ainda faltam, a meu ver, os leitores. A procura, a demanda. Existe um público, pequeno, é bem verdade, mas crescente. Parte desse crescimento acredito que vem das nossas ações enquanto macacos-sapiens.
Mário Rodrigues (Foto: Ricardo Moura)

Fig2012.com – Onde vocês costumam se encontrar, como funciona a rotina do grupo?
Mário - Aos sábados, à tarde, na livraria e cafeteria Casa Café. Majoritariamente conversamos sobre nossas leituras; quando algum livro está sendo publicado, detalhes como capa e diagramação também consomem muito tempo. Não há uma rotina específica, afora isso.
Nivaldo - Nós nos encontramos numa simpática livraria onde Mário bebe café gelado, Helder refrigerante e eu uísque. O SESC também é o lugar onde nos encontramos e onde ocorre nosso encontro com escritores do país inteiro. O SESC nos ajuda a suportamos o peso de sermos gauche.
Helder - Nos encontramos aos sábados, num café, ou pelos colégios em que ensinamos (ensino literatura e filosofia) e no SESC, quando há eventos literários. Cada um cuida de sua vida durante a semana e de criar novos textos para o bate-papo do sábado. No mais, ligamos e mandamos e-mails, tudo normal, até que no sábado discutimos sobre capas, fontes, gramaturas, orçamento e seleção de textos para os livros e o jornal.
Fig2012.com – Existe uma ideia de que escritores têm tendência a certo isolamento, mas isso vem mudando gradativamente, e nós temos vários exemplos de escritores que promovem, e muito bem, a própria obra e a si próprio, de maneira até meio popstar. Como vocês enxergam a importância da existência de grupos como o de vocês? E o que pensam também dessa exposição da figura pessoal do escritor?
Mário - Vejo sempre com bons olhos eventos literários e grupos que promovem a literatura. E, sim, o escritor deve expor sua arte. Mas acredito que o fazer literário envolve certas buscas, certos valores, que obviamente são individuais. Quando as atitudes midiáticas de um escritor não ferem esses valores, OK.
Nivaldo - Sou terrivelmente tímido, tanto que não permiti a publicação de minha foto na
orelha do livro que sai em setembro. Mas entendo que o escritor, uma vez que deseja
publicar, também espera que leitores possam ler o que escreveu e, como o livro é um
objeto de consumo, a exposição do autor é quase impossível. Quanto à reunião do grupo,
as conversas, criação do jornal e do próprio selo nasceram de uma necessidade, sim,
sem dúvida, mas não é nada tão sisudo quanto as coisas das quais dependem nossa
sobrevivência. Cada um de nós tem seu emprego e a família vai bem, obrigado. O
projeto é na verdade, embora concentre muito de nossas expectativas pessoais, uma
ótima brincadeira que adoramos partilhar.

Helder - Gostaríamos de promover melhor os nossos livros, sem dúvida. Mas a rotina de professor em três colégios particulares acaba tirando o tempo que resta. Porque o tempo, quando resta, é para criarmos os nossos livros e ler. Ler é fundamental. (Ler é tão importante quanto viver. Quem lê não vai para o inferno). Some-se a isso o fato de morarmos no interior, onde quase tudo é esquecido e santo de casa não faz milagre. Bem, talvez a gente faça um pouco. A saída é usar as redes sociais: Facebook e Twitter como forma de nos promover, além de cada um manter um blog (www.blogdohelderherik.blogspot.com). Bem ou mal o nosso grupo vem aparecendo (esta entrevista é um exemplo), não tenho dúvidas de que se morássemos na capital, e sobretudo no sul do país, a visibilidade seria maior. Acho que o escritor tem mesmo é que se mostrar, se promover, tomando sempre o cuidado para não cair no ridículo. É preciso conversar com o leitor, falar de sua obra, falar da vida, da luta e graça que é escrever.

* Durante o FIG, os escritores estarão presentes no evento literário paralelo, realizado pelo SESC Garahuns. O “SESC no Festival de Inverno de Garanhuns 2012” tem vasta programação que vai até o dia 21/7.

Fonte: www.fig2012.com

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